Algumas das lembranças mais importantes da nossa vida não estão ligadas ao valor de um objeto, mas ao significado que ele carrega. Eu tinha cerca de seis anos quando vivi um dos dias mais felizes da minha infância, era o Dia das Crianças, e o meu pai, que trabalhava na Cofap, em Mauá, no ABC Paulista, chegou a casa trazendo os presentes que a empresa oferecia aos filhos dos colaboradores. Ainda hoje consigo fechar os olhos e voltar àquele momento. Vivíamos numa casa muito simples, construída em madeira, tinha um quarto grande, uma sala modesta, uma cozinha e um pequeno banheiro nos fundos, a rua onde morávamos era de terra batida e, nos dias de chuva, transformava-se num verdadeiro lamaçal. Os invernos eram rigorosos para quem tinha tão pouco. Para tentar amenizar o frio, os meus pais revestiam as paredes da casa com caixas de papelão. Naquela época, aquilo fazia parte da nossa rotina. Só muitos anos depois compreendi o esforço que existia por trás de cada pequena solução encontrada para cuidar da família. Naquele Dia das Crianças, entre os presentes que o meu pai trouxe, estava um carrinho grande. Para muitas pessoas poderia ser apenas um brinquedo, mas, para mim, era um verdadeiro tesouro. Mal consegui esperar. Saí imediatamente para a rua, sentei-me no carrinho e comecei a descer a ladeira de terra em frente à nossa casa, o vento batia no meu rosto enquanto eu ria sem conseguir esconder a felicidade. Naquele instante, eu não via dificuldades, nem a casa simples ou a rua de barro. Via apenas um menino feliz, cheio de sonhos e convencido de que o mundo era enorme e estava repleto de possibilidades. Passaram-se muitos anos desde esse dia, mas essa lembrança continua viva dentro de mim. Hoje compreendo que a riqueza da minha infância nunca esteve nas coisas que possuíamos, mas nas experiências que vivemos e na capacidade extraordinária que os meus pais tinham de transformar tão pouco em tanto. Talvez seja por isso que escolhi a fotografia. Aprendi, ainda criança, que o tempo passa depressa. Os brinquedos desaparecem, as casas mudam, as ruas deixam de ser como eram e as pessoas envelhecem. O que permanece são as memórias. Cada fotografia que faço representa uma oportunidade de preservar um instante que, um dia, poderá tornar-se uma das recordações mais valiosas de uma família. Se hoje tenho a missão de contar histórias através da minha câmara, é porque um menino de sete anos, sentado num carrinho de brinquedo, descobriu, sem sequer perceber, que a verdadeira felicidade mora nos momentos mais simples da vida.


